Memorial de Aires
por Machado de Assis
Sobre Este Livro
Memorial de Aires é o último romance de Machado de Assis, publicado em julho de 1908 — o mesmo ano de sua morte — pela Editora Garnier. Estruturado como o diário íntimo do Conselheiro Aires, diplomata aposentado que regressa ao Rio de Janeiro após décadas na Europa, o livro cobre os anos de 1888 e 1889, testemunhando de longe dois acontecimentos capitais: a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República. No centro da narrativa estão as histórias dos que o cercam: a jovem viúva Fidélia, o casal Aguiar — unidos por um amor sem filhos — e o português Tristão, que chega ao Brasil para mudar o equilíbrio de todos. É a obra mais intimista, mais melancólica e, para muitos críticos, a mais pessoal de toda a produção machadiana.
O romance retoma o Conselheiro Aires, personagem já presente em Esaú e Jacó (1904), e o coloca agora como protagonista absoluto e narrador único. A estrutura é a de um diário: entradas datadas que cobrem dois anos decisivos da história brasileira — 1888 e 1889, os anos da Abolição e da República. Mas Machado inverte as expectativas: esses eventos históricos monumentais aparecem quase de relance, como ruído de fundo, enquanto o foco permanece nas pequenas dimensões da vida privada — uma viúva que não esquece o marido morto, um casal que sublima a ausência de filhos amando os filhos dos outros, um velho diplomata que observa tudo com ironia afável e não se decide a amar.
Fidélia, a viúva jovem e bela que desperta em Aires um interesse que ele mesmo não sabe nomear — admiração estética, afeto paternal, ou algo mais —, é o eixo dramático da narrativa. Em torno dela gravitam o casal Aguiar, cujo amor mútuo e sereno funciona como contraponto à agitação do mundo exterior, e Tristão, jovem português que retorna ao Brasil e reconfigura silenciosamente os afetos de todos. O Conselheiro Aires narra, observa, reflete — mas raramente age. É, nas palavras do crítico Alfredo Bosi, alguém que 'ouve mais do que fala e concilia o quanto pode'.
Ao contrário dos romances anteriores, o tom aqui é de melancolia serena, não de ironia cortante. A sátira se recolhe; o sarcasmo cede lugar à contemplação. Vários críticos — entre eles John Gledson e Marta de Senna — identificaram no Memorial traços autobiográficos únicos na obra machadiana: a solidão do diplomata idoso espelharia a solidão do próprio Machado viúvo; o olhar de Aires sobre a morte e a velhice, uma meditação genuína sobre o fim próximo.
Dedicado ao crítico José Veríssimo, o livro abre com duas epígrafes medievais em galego-português — uma cantiga de Joham Zorro e outra do Rei Dom Denis — que antecipam, cifrados, os movimentos de partida e chegada que estruturam a trama. O romance termina sem grandes resoluções: Fidélia parte para Lisboa com Tristão; os Aguiar ficam; Aires fica. A vida continua, quieta e irresoluta, como sempre foi.
Citações Famosas
"Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular."— Machado de Assis
"Não há nada mais tenaz que um bom ódio."— Machado de Assis
"Uma coisa é citar versos, outra é crer neles."— Machado de Assis
Perguntas Frequentes
Memorial de Aires narra, em forma de diário, os anos de 1888 e 1889 vistos pelo Conselheiro Aires — diplomata aposentado, culto e irônico, que regressa ao Rio de Janeiro após longa carreira na Europa. Ao redor dele gravitam três figuras centrais: Fidélia, jovem viúva de beleza discreta que hesita entre a fidelidade ao marido morto e uma nova vida; o casal Aguiar, unidos por amor profundo e sem filhos, que projetam nos jovens o afeto que não puderam dar aos próprios herdeiros; e Tristão, português que chega ao Brasil e altera, silenciosamente, o equilíbrio afetivo de todos. No horizonte, a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República passam quase sem alarde — o romance prefere a intimidade ao ruído da História. É o livro mais melancólico e pessoal de Machado de Assis, escrito no mesmo ano de sua morte.
Memorial de Aires é considerado o mais pessoal de Machado de Assis por reunir, de forma única, traços autobiográficos que o autor nunca tornara tão evidentes em sua ficção. Machado o escreveu viúvo — Carolina, sua esposa e companheira de 35 anos, havia morrido em 1904 —, adoentado e consciente de que seria sua última obra. O Conselheiro Aires, narrador e protagonista, é um homem idoso e solitário que observa a vida dos outros com afeto distante e ironia melancólica — um espelho da condição do próprio autor. O tom intimista e contemplativo do livro, sem o sarcasmo feroz dos romances anteriores, reforça essa leitura: é como se Machado tivesse baixado a guarda pela última vez. Ele mesmo confessou em carta a Joaquim Nabuco que seria, se houvesse tempo, certamente o seu último livro.
Memorial de Aires se distingue dos outros romances de Machado de Assis por pelo menos três aspectos fundamentais. Primeiro, a estrutura: é o único romance do autor inteiramente organizado como diário, com entradas datadas que criam uma ilusão de documento real e não de ficção construída. Segundo, o tom: ao contrário das obras da fase madura — Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Quincas Borba —, não há sarcasmo corrosivo nem ironia destrutiva; o registro é de melancolia serena e contemplação afável. Terceiro, o tratamento da História: os eventos mais dramáticos de 1888-1889 — a Abolição e a República — aparecem quase de passagem, subordinados às pequenas narrativas do cotidiano íntimo. O crítico Alfredo Bosi definiu bem: o Conselheiro Aires 'ouve mais do que fala', e esse silêncio eloquente é a marca mais singular do livro.
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